Desafio #001

O primeiro desafio literário do blog será com base no terceiro capítulo do livro “O Filho de Mil Homens” do autor Valter Hugo Mãe.
Todos terão que ler o capítulo e tomá-lo como base para os textos da primeira semana. Cada qual escreve no gênero que quiser!
Pode ser que apenas uma frase ou aum trecho desse capítulo chame a atenção dos autores, então podem se ater a essa parte e não ao todo. Lembrando que é apenas base para inspiração individual de cada um. Segue abaixo o capitulo na íntegra:

A mulher que diminuía

A mãe da mulher enjeitada acordou um dia e falou como se fosse francesa. Não que se tornasse francesa de falar palavras novas, mas de falar a sua língua de sempre com um sotaque esquisito. Diziam que lhe dera a síndrome do sotaque estrangeiro, diziam que não tinha cura e, pior, que lhe acentuava o mau humor até à amargura total. Acordou numa sexta-feira de manhã, sabia que precisava de ir aos campos espalhar os bichos para comerem e regar de água bebível as hortaliças, chamou pelo marido com a naturalidade de sempre e um som diferente. Sentiu como se tivesse um gosto feio na língua. Chamou o marido e ouvia-se a si como ouviria outra pessoa, pois não era assim que falava, não falara assim nunca. Dizia tudo com um sublinhado alienígena nas vogais escuras, os o e os u, que lhe saíam com um rebuscado até difícil de reproduzir. A mãe da mulher enjeitada chamou a filha de burra, porque a filha insistia com o pedido de calma, a ver se podiam recomeçar aquela sexta-feira de outro modo. Achava que a mãe estava nervosa, talvez, assustada e com voz de sono. A mãe dizia: não sejas burra, Isaura, tu sai-me da frente e chama o teu pai. Um sotaque nunca seria uma voz de sono, não seria, menos ainda, um sabor na língua, um sabor feio, um sotaque era uma identidade estrangeira, sinal de uma pessoa que não pertencia àquele lugar, de alguém que vinha de outra paragem. Era outra pessoa. Outra Maria. A Isaura afastava-se da frente da mãe, que andava pela casa como à procura de um culpado, e nem cadeira, nem gato, nem porta e nem chá a ferver assumiram o ato, nada nem ninguém parecia ter culpa. A Maria, a alterada mãe da mulher enjeitada, assaltada por um som novo no seu próprio modo de falar, não encontrava alívio nem cura. Um sotaque, diria depois, não era algo que pudesse tirar da boca com dois dedos, como a puxar pela língua esticando-a até ao limite. Como um mosquito que quase se comesse sem querer. Um sotaque não se escondia nem debaixo da língua nem no depois da esquina da garganta, era só um som, não se agarrava e não se mudava de lugar. A Isaura ainda pediu que o pai arrefecesse o chá com um pouco de água fria, mas a Maria saiu manhã tão cedo daquela sexta-feira e foi alardear ao povo, desde os campos até ao mar. Correu a terra toda, cansandose por nada. A síndrome do sotaque estrangeiro nunca mais a largaria, e não haveria ciência nem piedade para acudir àquilo. A filha, também estupefacta, cuidava de tudo e confundia-se. O pai perguntava: Isaura, tu que tens. E ela respondia: ó pai, eu sou assim. A Isaura espalhou os bichos e regou as hortaliças e encostou-se a ver o sossego breve do sol incidindo ainda fresco sobre as coisas. Sentiu-o na própria pele, a aquecer-lhe lentamente o corpo num enleio muito doce, confortável. Apenas por um instante. Antes de sofrer outra vez, outra vez o mesmo pensamento recorrente, incurável também, acerca da solidão. Desfazia os orégãos secos sobre o tecido branco e ficava absorta, como se fizesse outra coisa, estivesse noutro lugar, fosse outra rapariga. Quando a Maria e o marido prepararam a filha, muito nova ainda, para o filho de um vizinho, falaram tudo do que mandava o juízo. Era uma rapariga bemmandada, especialmente bem-mandada, sabia cada tarefa da casa e do campo, haveria de servir de esposa com brio. O rapaz, na altura já mais espevitado, quase adulto, punha-se de volta dela, a rondá-la como numa brincadeira, a dizerlhe que era gado seu e que haveriam de ser felizes. A Isaura ficava feliz. Pensava que o rapaz a que ria, talvez a achasse bonita e a desejasse o suficiente para serem felizes para sempre. Depois reconsiderava, porque a eternidade da vida era demasiado para qualquer fantasia, pensava nos pais e sonhava que o rapaz a amaria ao menos mais tempo do que os seus pais se haviam amado. A Isaura voltava a casa, jurava que não se haviam beijado, o que fora verdade durante uns quantos anos, e fazia a sua parte na preparação do jantar. Dava pequenos saltos porque, às vezes, estava ansiosa de mais, mas logo se continha, não fosse a Maria decidir acabar com tudo, batendo-lhe, invejando-lhe a idade ou invejando-lhe a oportunidade da felicidade. Invejando-lhe o não ser estrangeira. O rapaz pedia-lhe vezes sem conta a proximidade do rosto, um beijo, a visão dos seios, a mão na ferida. Dizia ferida. A Isaura corava e queria dar-lhe tudo e queria que ficassem mais velhos de um segundo para o outro, para casarem e desaparecerem, mais meia dúzia de bichos, para uma habitação própria. O rapaz chegava-se perto, e ela fugia-lhe, como se um beijo cicatrizasse na pele para todos verem. Fugia-lhe, como se depois os pais lhe espreitassem pela ferida adentro a ver onde ficava a intacta membrana que lhe selava a honra. A Maria cheirava a filha, e se ela cheirasse muito a rapaz, o que por vezes era o mesmo que cheirar a um dos bichos do campo, levava bem assente na cara e ficava prometida para todos os azares. A Isaura, mesmo durante o tempo em que ainda não beijara o rapaz e nem se encostara sequer às suas calças elevadas, lavava as mãos e o rosto, passava água fresca braços acima e entrava em casa o mais quieta possível para que não suspeitassem dos perigos, para que não suspeitassem das pressas dos seus corpos jovens. E o rapaz dizia-lhe: vamos fazer amor, Isaura, depois casamos na mesma, ninguém te espreita a ver se és virgem. E a rapariga respondia: a minha mãe mata-me, o meu pai mata-te. O rapaz repetia: vou ser o teu marido, o que tens aí é tudo para mim. Parecia que ela tinha ali muita coisa, como uma pilha de frutos ou objetos de entreter que se podiam pegar e levar embora. Ela chegava a abrir as pernas, sem nunca levantar as saias. Um ar grande acorria-lhe pernas acima e o fresco era já como um toque diferente, uma presença ali ao pé do seu sexo guardado e expectante. O rapaz ia acreditando que poderia avançar, que lhe poria ao menos a mão, que poderia contemplar, ver como era, o que era, quanto era. Ela então recolhia-se, por causa da mãe, por causa do pai, e dizia que não. Porque arejar se já fora demasiado e não poderia prosseguir. O rapaz dizia que ela tinha o nome mais bonito de todos, o mais romântico e, instigado pelas más hormonas, tocava-se a dizê-lo, e ela corria para longe. Nunca chegava a ver nada de muito adiantado, mas ele, quase cruel, jurava-lhe que se masturbava. A Isaura pensava que mentia. Lavava-se e entrava em casa. A mãe rude e afrancesada espiava os seus modos, o pai pesava sobre tudo como uma espessa camada de silêncio, e assim ficavam as coisas num incómodo constante. Até ser insuportável. As raparigas tinham uma ferida que nunca curariam. Estaria para sempre exposta, e por ela sofreriam eternamente. Os homens haveriam de investir sobre essa ferida de modo cruel para que nunca pudesse sarar. A Isaura não sabia ainda que era para que sofresse que lhe calhara ser mulher. Talvez, com sorte, pudesse ser um pouco feliz antes de morrer. Mas apenas um pouco e com muita sorte. A Maria dizia que isso não sucedia a todas. Apenas às mais merecedoras e espertas. Porque facilmente um erro estragaria tudo. O amor, dizia ela, estragase. O amor estraga-se. E tu não queiras ser ordinária. Quando as coisas eram mais evidentes, o pai perguntava: Isaura, tu que tens. E ela respondia: ó pai, eu sou assim. Ardiam as lâmpadas ténues. A noite era toda para o frio e para o sossego. A Isaura deitava-se, nunca se tocava, tinha medo de se denunciar no património do rapaz. Tinha medo que as suas mãos na pele do seu próprio corpo deixassem uma cicatriz que se pudesse ver. Tinha medo que algo provasse ao rapaz a destruição do que lhe devia pertencer, e que ele se tornasse seu inimigo. Achava que o homem amado podia ser um inimigo, se a mulher não fosse merecedora e esperta. Tinha medo da pilha de coisas metidas na sua honra, como coisas sobre outras ali guardadas que não devia entornar. Pensava em frutos, porque lhe falavam dos frutos do amor e da frescura primaveril das raparigas. Como fertilidade e abundância. Frutos de rapariga. Imaginava uma maçã em cima de uma pera que estava em cima de uma laranja grande que assentava numa melancia enorme. Imaginava-se um corpo todo em equilíbrio. Deitava-se e pensava assim que, enquanto se conservasse direita para o compromisso eterno com o rapaz, o seu corpo estava perfeito. Era preciso que não o estragasse. Era preciso que não estragasse o amor. A Maria dizia-lhe isso mesmo: se lhe deres tudo antes do tempo, passas antes do tempo e depois ficas logo velha e sozinha, como os mortos cujas almas se esqueceram de partir. Deitada muito esticada na cama, a Isaura, de nome tão bonito, acreditava que tinha sorte. Ela tinha sorte e ia tudo correr bem. Entretanto, com o tempo, a Maria desenvolveu uma angústia inconsolável. Entrara nas mezinhas loucas, lavando a boca com perfumes e estercos de todo o tipo, pondo a boca em flores e cus, em ventanias e riachos, à espera que lhe saltasse fora o sotaque que sinistramente lhe entrara. Depois, disseram-lhe que tinha de ser das coisas de comer, a passar muito perto das cordas vocais. Era uma loucura das cordas vocais, como se tivessem cérebro autónomo e raciocínio e subitamente perdessem a lucidez. A Maria arrastava a filha Isaura e iam as duas à procura das melhores e piores coisas de beber e comer. A Maria comia as merdinhas redondinhas dos coelhos, e a Isaura sentia nojo daquilo e achava que a mãe era parva de acreditar em tudo. Ao mesmo tempo, a Isaura calava-se a cada experiência e, quando a Maria abria os olhos e dizia a primeira palavra, esperavam as duas com o coração nas mãos que a mezinha tivesse funcionado. Invariavelmente, não dava em nada. A Maria dizia: já comi espinho de rosa e cagado de tanto bicho, já bebi água preta das lamas e sangue novo de galo, já esfreguei nas mamas urtigas e na garganta serrim de carvalho. Já enfiei goelas abaixo a vassoura de lavar garrafas. Dizia-o e chorava. A Isaura punha-lhe um chá sobre a mesa. O chá arrefecia. Desfazia os orégãos secos e pensava para longe dali. Era um modo de fugir. A vizinhança vaticinava que uma doença assim nunca se vira e que seria a mais rara ou única do mundo. Diziam que só a Maria padecia dela porque, entre toda a vizinhança, tinham estado por todo o lado e falado com toda a gente e não havia memória de defeito igual. E alguém disse que, se não era da boca, não era da garganta nem das cordas da voz, tinha de ser mentira ou tormento da cabeça. Era uma fantasia, uma maluquice ou uma loucura. A Maria zangou-se. Ainda trabalhava, e quem trabalha não está maluco, respondia ela. A vizinhança, à vez, foi inventando histórias sempre muito delirantes. Eram histórias fáceis de espalhar. Foi como se espalhou por toda a parte, porque a vizinhança ia a toda a parte e falava com todas as pessoas, que a Maria era mentirosa e que andava como suja a chafurdar nas merdinhas dos coelhos e até dos outros bichos maiores e mais cagões. A Maria odiou-os a todos. Desejou que morressem os vizinhos de todas as partes. Agarrou na Isaura como num saco de pernas altas e começou então a amuar até à amargura total. A Isaura dificilmente se livraria do jugo da mãe. À noite, outra vez deitada em silêncio, a Isaura pensava sempre que o caminho para a liberdade estava no casamento e no meio das pernas. Pensava que, quando pudesse abrir as pernas, o seu rapaz a amaria por muito tempo e a faria feliz. Pensava que por dentro das pernas um anzol se prenderia ao pénis do rapaz. Um anzol imaginário que justificaria a fidelidade e a companhia para a vida inteira. Ser feliz era igual a ter a companhia dele e o sexo. Sobre o sexo ela não sabia mas imaginava muito. O rapaz dizia-lhe: se não me deres a ferida, não vou querer casar contigo. A Isaura morria de medo. Doía-lhe a ferida de tanto esperar. Pensava que tinha um nome bonito e que tinha nascido com sorte. Só precisava de ser merecedora e esperta. Ele também lhe dava a entender isso. Pedia-lhe que não fosse burra ou parva. Para ser melhor, tinha de aceitar. Acabou por perder a virgindade num fim de tarde de verão, o calor bruto a obrigar que andassem com menos roupas e o rapaz com as calças a caírem-lhe pelo rabo. Ele tomou-a beijando-a, e ela já achava suficiente abuso, como se o beijo já a condenasse à morte. Por causa da mãe, por causa do pai. Mas ele fazia-a sentir o elevado das suas calças, ali no centro de tudo e, vestidos, encaixavam-se de algum modo, como peças uma da outra, casadas pela natureza, a romper a barreira difícil dos medos, das ordens. A Isaura lembravase de a mãe dizer: é bem-mandada, a minha rapariga é bem-mandada, faz uma boa esposa. E o rapaz mandava. A Isaura assim obedecia, mas talvez obedecesse sobretudo a uma necessidade própria. A mãe, afinal, não lhe explicara ou talvez não entendesse tudo. Obedecia porque queria dominar o rapaz. Afinal, o amor era ensanguentado e difícil. Ficara no chão, suja pelas porcarias que as rodas das carroças traziam, e doíam-lhe agora as costas e mais os arranhões nas coxas. Tinha pequenas mordeduras no rabo, talvez fossem espinhos mínimos que lhe picavam a pele, coçava-se. A limpar-se tão mal, olhava para si mesma quase sem acreditar que o amor parecesse aos olhos aquela desgraça. O rapaz tinha desaparecido rapidamente do barracão. Ia feliz de alguma coisa que não acudia à rapariga. Ia diferente da rapariga, como se fossem diferentes e não se pertencessem em nada. A Isaura pensava que lhe competia sofrer sozinha e que, afinal, estava sozinha. Pensava na hipótese de ser assim mesmo a natureza das coisas, a natureza do amor, e disse baixinho, encostada à parede e mal segura: pensava que o amor era bom. O amor fazia com que um e outro ficassem diferentes. Não conseguia entender tal coisa. Pensou que o rapaz tinha ido embora diferente dela. Não podia ser que o amor tornasse as pessoas diferentes assim, a menos que não fosse amor nenhum. A Isaura, naquele instante, não sentia o rapaz e sentia que o rapaz não pensava em nada. Estava muito arrependida. Talvez devesse ter esperado. Talvez apenas um pouco mais. A Maria, a perder-se cada vez mais na sua perturbação, reparou que a filha lhe chegou a casa como um figo murcho. Pôs-se aos estranhos berros a dizer que ela vinha como um figo murcho. Abanou-a, perguntou lhe o que tinha e não aceitou que a Isaura respondesse que estava bem. A Maria jogou-a sobre a cama e inspecionou a face aquecida da filha. Estava ruborizada, os olhos um pouco líquidos e o fôlego quase falhando. Estava até rouca, a Isaura, dizia as coisas numa voz mais sumida. A Maria, inclinada sobre ela, olhava atentamente, como a contar coisas fugazes. Subitamente, perguntou: foi o moço. A Isaura respondeu: só estivemos a conversar. Ele diz que tenho um nome bonito. O nome mais bonito de todos. É o que ele diz. Naquele instante, a Maria odiava toda a gente. A Isaura tinha dezasseis anos, apenas a idade para trabalhar e esperar. Apenas a idade de ser bem-mandada. A Maria levantou-lhe a saia, espreitou mal espreitado e teve logo a certeza. Viu-lhe o picado da pele, por causa de espinhos no chão ou outras porcarias de magoar que sempre o chão tinha. A Maria chamou o marido. Cirandou sem pouso pelo quarto até que ele veio. Disse-lhe que o moço tinha feito uma pressa e que a cachopa estava desonrada. O pai perguntou tantas vezes se aquilo era verdade que a própria Isaura se acusou detalhadamente. Não era muito culpa sua, porque não o queria antes do tempo, mas o amor urgia, como se tivesse horas diferentes das do pensamento, e tomava decisões perigosas, erradas, destruidoras. A Maria dizia que havia muito ano pela frente e que a filha ainda tinha obrigações para com os pais. Fazer pressa era uma traição e indignava a família. O pai dizia: Isaura, tu não és assim. Estava triste e espantado. E ela sentia que tinha culpa. Quando a Isaura se lavou, sentiu mais forte o cheiro do rapaz, como se ele estivesse de novo presente, ofegante sobre si. Viu-se abismada a escorrer a água e nenhum fruto, nenhum objeto de comer ou entreter caindo, nada. O que havia ali dentro para ser oferecido já se tinha oferecido e sobrava nada. O pénis do rapaz brincara e comera tudo. A Isaura pensou que dentro de si o pénis do rapaz abrira uma boca larga que gulosa comera o que se guardava e, por injustiça ou muita tristeza, a ela nem lhe fora dado perceber o que seria. Que tesouro segurara dezasseis anos e que não continha mais. Ficava só o curso da água e uma sensação perdurante de ser empurrada, pressionada, como se um saco de pedras pousasse sobre o seu estômago. A Isaura talvez quisesse que o amor ainda mudasse para outra coisa. Poderia ser que o rapaz viesse ainda a correr por ela, a desculpar-se de se ter diferenciado tanto, de se ter ausentado, de ter fugido. Poderia agora vir dizer-lhe que a queria e tratá-la com um carinho que compensasse pela positiva o ensanguentado do sexo. A Isaura talvez pudesse deixar de se sentir estúpida e culpada se o rapaz viesse dizer-lhe que fora bom, que gostara e que gostava dela, gostava do seu nome, como se isso legitimasse a condenação de se nascer com uma ferida no meio das pernas, uma ferida que, ia aprendendo agora, servia para que padecesse. Mas o amor, nem por isso, chegava. A água ia lavando o corpo da rapariga como se lavasse sonhos também. Não para que restassem limpos e renovados, mas para que se apagassem como levados numa enxurrada. Apagava-se toda a rapariga, seguindo pelo ralo como se a alma se dissolvesse na água, igual a um açúcar que se perde e nunca mais volta ou volta muito dificilmente. Na porta de madeira velha encostavam-se os seus pais, furiosos mas também entristecidos pela sorte má. Ouviam a água e faziam cálculos ao medo. Se a rapariga engravidasse fácil, como as galinhas, seria pior. Uma rapariga de dezasseis anos não era gente de suficiência para cuidar de um nascido. O pai da Isaura segurava no puxador da porta como num gatilho prestes a ser premido. Diante de si a figura tremendo da filha lavava-se do amor como sabia. Lavava-se muito mal do amor. Mas lavava- se terrivelmente do amor. Contra a natureza. O pai perguntava: sangras. E ela respondia: não. A mãe dizia: se calhar não foi ao fundo. O pai perguntava: saem coisas. E ela respondia: não. A mãe dizia: se calhar não foi ao fundo. O pai dizia: não foi ao fundo. A mãe dizia: não foi, não. A Isaura não via sair nada e não sabia o que pensar. O pai dizia: adoça-te, filha, tu adoça-te. Dizia que se adoçavam as moças no seu asseio. Era um modo de estarem prendadas e se acostumarem a permanecer bonitas. A beleza das raparigas estava grandemente no asseio. O pai dizia: adoça-te, filha. Era o que lhe dizia tantas vezes, como se fosse um dia normal e a Isaura pudesse voltar a estar inteira e prendada. A Maria disse à Isaura que devia meter o dedo mais comprido e muito esticado, a ver se chegava a sentir uma espécie de parede. Deitada, anestesiada com a vergonha, a Isaura tentava o estranho objetivo mas o seu curto dedo não era suficiente para o perceber. A mãe achava uma boa ideia, insistia, parecia ameaçar fazê-lo ela mesma se a Isaura não acedesse a executá-lo com esperteza. Esticas o dedo, o dedo grande, e procuras com cuidado, com cuidado, não vás fazer o que o estafermo não conseguiu fazer. A Isaura pensou: deve estar rebentado, por isso sangrei muito. A Isaura disse: tem uma parede fechada, é uma parede fechada, como uma toalha estendida no meio do caminho. Pensava que talvez pudesse sentir um anzol partido. Um anzol estúpido que não mantivera o amor do rapaz dentro de si, preso a si. Seu. Ela sonhou que o rapaz regressara e do seu pénis saíram os pertences da Isaura. Sonhou que lhe devolvia a vontade de acreditar no amor. O pai da Isaura foi ao vizinho falar-lhe do sucedido. Era um incidente, como acontece aos cachopos que se rondam muito. O pai do rapaz nem deitou mãos à cabeça, nem se surpreendeu. Achava que os dois já andavam naquilo há muito, e pouco importava, porque parecia que queriam casar e naqueles tempos já não era grande virtude a virgindade. Zangaram-se. O pai da Isaura não queria que os cachopos se portassem como adultos. O outro disse-lhe que agora era assim, dava na televisão e as crianças punham-se umas nas outras como se põem os bichos. Os bichos também não pensam em nada e fazem-no, dizia o outro. As crianças querem é crescer e prazer. Como se o amor fosse instintivo ou pudesse acontecer também aos estúpidos. Sem mérito nem esperteza. O pai da Isaura disse-lhe que o rapaz era um bicho, mas que a rapariga vinha e ia para gente. Foi só isso. A conversa muito breve e os compadres logo desavindos como se fossem inimigos com grandes causas. Quando a Isaura soube, foi-lhe dito que era muito bom que não tivesse ido ao fundo, porque caladinha e lavada ia servir de absolutamente nova e a estrear para outro rapaz. Com aquele, já não casaria. Ela pensou que havia uma precipitação naquela decisão. E o amor, perguntou para si mesma. Não havia um amor entre ela e o rapaz, aquele sentimento contínuo de esperar. Esperara. Se o amor fosse o sexo e outra coisa qualquer, tinha de ser o sexo e a espera, a capacidade de esperar por alguém. O pai explicou-lhe pouco. A Isaura não entendeu nada. A Maria achava que a rapariga virgem seria fácil de encaminhar com outro. Desde que ficasse encaminhada, a vida ia dar ao mesmo. Os homens eram todos iguais. Só as mulheres podiam aceder à diferença. A Isaura pensou nisso. Na igualdade dos homens e na oportunidade de diferença das mulheres. Quieta, quando novamente sozinha, esticou o dedo e foi à procura de uma parede que verdadeiramente sentisse. Uma que verdadeiramente ali estivesse a pô-la de nova como a estrear para outro rapaz. Mas nada. Por isso tinha visto tanto sangue, por isso tinha doído muito e se definira o amor como uma fome bruta e sem prazer. Fechou as pernas, imprestável, os frutos haviam caído, a sua honra havia-se entornado. Estava sozinha. Foi pedir ao pai que reconsiderasse. Confessou gostar do rapaz. Achava que, se não ficasse com ele, não ficaria com ninguém, porque não sabia procurar, não sabia namorar, e não seria prometida para mais ninguém. O pai pensava que a honra da família tinha sido morta. Enquanto isso, mais e mais, a Maria dispersou a sua atenção. Era o modo como todos entendiam o seu comportamento. Estava cada vez mais dispersa, até nem zangada, apenas absorta, sem querer falar muito ou fazer muito. Começou por não conversar. Dizia só o essencial. Depois, foi parando os gestos, como se terminasse a sua energia, outrora tanta. A Maria tornava-se envenenada pela sua voz, a repudiar-se. Os médicos tinham-lhe dito que ficaria confusa se não exercitasse a lucidez com cuidado. Mas os médicos nunca saberiam que água mole seria um sotaque na pedra dura da resistência de uma mulher. Nunca compreenderiam como ficava a Maria a perceber-se menos, incapaz de se identificar no estranho da sua doença. Já muito tempo passado sobre as mezinhas e as curandices, nenhuma esperança restava. Agora trabalhava menos, instruía a Isaura e ficava a demorar-se pelos cantos como à procura de perder tempo e mais nada. Com isto, ninguém percebeu o quanto a Isaura suplicou ao rapaz que voltassem os dois à promessa de casar. Ninguém percebeu como a rapariga escapava dos seus afazeres, nuns minutos de cada vez, para se ir insinuar ao rapaz com um amor baralhado, magoado, encurralado, sem ter mais para onde ir. E o rapaz reiterava o desprezo. Já não a queria. Dizia que ela o traíra acusando-o aos seus pais. Dizia que ela era feia, que entretanto estava já com dezoito anos de velha e que as raparigas mais livres começavam a aparecer pela praça e ele ia lá colhê-las como das árvores. É só pegar e deitar-lhes a boca, porque foram feitas para os rapazes. As raparigas foram feitas para os rapazes, dizia ele mil vezes. A Isaura, crescendo toda, davalhe tudo se ele quisesse. Mas ele pensava que ela era um problema. Pensava que, afinal, não queria comprometer-se tão novo porque as raparigas livres abundavam e ele queria abundar na sorte de as ter por perto. Punha-se na Isaura, chamava-lhe depois nomes, ela nem sabia se engravidava a cada passo ou se por sorte os filhos lhe morriam avulsos no lugar errado. Ela entristecia de tal modo, e tanto se mostrava de vítima, que achava poder apelar a alguma piedade do rapaz. Ele, por outro lado, achava mais e mais que a Isaura era uma coitada, e que já era sorte que ele a usasse para o prazer. Porque usá-la assim já era dar-lhe o amor a que ela tinha direito. O único amor a que teria direito. O amor dos infelizes. Assim foram uns anos, como se pelos anos ela acreditasse que ele se cansaria e ficaria para sempre. Ele, entusiasmado pelas raparigas da praça, magoava a Isaura como a gastar com ela um resto de outro desejo ou só um excesso de desejo. Não era nada por ela, era exclusivamente por ele. Uma demasia. A Isaura fechava a boca. Sentia-se feia, via-se feia. Lavava-se e sentia-se suja, via-se suja. Adoçava-se e já não tinha como se prendar. Estava sempre magoada e suja. A Isaura falava e ouvia-se mal, sentia-se burra. A Isaura fechava a boca, sujava-se nos bichos, na terra, trabalhava a sujar-se. Cortou o cabelo e ficou feia, mesmo que já não se visse, mesmo que nunca mais quisesse olhar para o espelho. Não comia, não queria mais ser gorda, ser rude, ser do campo. Não queria ser ninguém. Queria diminuir até ser nada. Com o tempo, a Isaura emagreceu até um graveto frágil, triste, a faltarem-lhe todas as hormonas de ser mulher. A Isaura parecia um bocado de gente. A Isaura diminuíra. O pai dizia-lhe: Isaura, tu não és assim. Desfaziam os orégãos, os três derrubados sobre a mesa da cozinha, e estavam longe. Tinham sobretudo medo de se aproximarem uns dos outros. Como se voltar uns aos outros fosse a garantia de um entristecimento maior. Os orégãos secos estendiam-se na toalha grande e a casa cheirava bem. Enjeitada e diminuta, a Isaura envergonhava-se de ter um dia oferecido tudo ao amor, mesmo sabendo que o amor era longe de bom, mesmo sabendo que era sexo e espera, a Isaura sentia que esperara demasiado e por ilusão, por estupidez. Estava para sempre sozinha, e para sempre era quase uma impossibilidade, por isso pensava que a sua vida se encurtaria para lhe tirar todo e qualquer direito de ser de outro modo, de ser outra. A Maria, calada, já não lhe berrava nem instruía de coisa nenhuma. A Maria não pensava muito na Isaura. Viviam cada uma para seu lado, a coincidirem em momentos muito definidos que, numa sobrevivência instintiva, as punha como mãe e filha à mesma mesa e mais nada. De certo modo, ambas pareciam esgotadas do tempo prematuramente. Como esses mortos cujas almas se esqueceram de partir. Iguais.

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