ESOFROMATEM

– O que ele tem, doutor?

– Bom, ao que me parece é uma doença rara.

A mãe e o pai olharam desesperados para o doutor. “Rara” era uma palavra que raramente é usada, mas quando ela sucede a palavra doença, o que um ser humano geralmente espera é que nunca seja usada. Pensaram no pobre filho deitado na cama com a rara doença.

– Qual doença, doutor?

– É uma doença que não tem nome em português. Ela é conhecida na medicina como “Die Verwandlung”.

– Diva… O quê?

– Bom, podem chamá-la de “A Metamorfose”.

Quanta palavra difícil, pensaram os pais. Se o nome já é autocomplicável, imagine a doença. Como iriam fazer agora com essa “metamorfose” do filho. Ele iria morrer daqui a uma semana? Perderia uma perna ou um braço? Teria problemas mentais? Não seria mais o seu grande menininho de sempre? Uma lágrima escorreu do rosto da mãe. O pai se continha dentro de si.

– E qual é a cura, doutor? – perguntou a mãe. – E o que vai acontecer com ele, doutor? – perguntou o pai, ao mesmo tempo.

O doutor pensou em responder as duas perguntas ao mesmo tempo, mas viu que isso não era possível. Depois pensou em responder primeiro a da mãe e depois a do pai. Também não era possível. Então, pensou em responder primeiro a do pai e depois a da mãe. Não obstante, há filósofos que são, em resumo, tenores desempregados.

– Não há cura e não sei o que vai acontecer ele.

– Como assim? – indagaram os pais indignados, pensando que um doutor deveria ter todas as respostas.

– A Metamorfose só ocorreu uma vez na história da humanidade que se tenha registro. Embora, há quem acredite que ela acontece todos os dias, com muitas pessoas.

– E o que aconteceu com essa pessoa registrada com metamorfose?

– Ele virou uma barata?

Os pais se entreolharam. Não sabiam se ficavam indignados ou se riam da situação. Estavam eles, diante de um falso doutor?

– Uma barata? – perguntou a mãe.

– Sim, uma barata – respondeu o doutor.

– O senhor está brincando com a gente? Isso não é possível, ele é um menino. Como que ele vai deixar de ser menino e se transformar em uma barata?

– Essa é a complexidade de A Metamorfose. Ela muda tudo, dentro e fora de você, mesmo que você não queira, mesmo que você não aceite.

– Já chega dessa baboseira – resmungou o pai, irritado – Vá embora da minha casa!

– Mas, essa é a ver…

– Não quero saber – o pai ficou vermelho, levantou a voz e fez sinais para que o doutor se retirasse do seu lar, de sua vida e, principalmente, da vida de seu filho – vá embora!

Quando o doutor foi embora, a casa ficou silenciosa e só ficaram, o pai e mãe. A mãe desabou a chorar e o pai a segurou bem forte entre seus braços. Por um momento, esqueceram que o filho estava em casa, que estava doente. Em suas cabeças, o filho estava saudável, na escola, brincando. Ah, o grande menininho dos pais.

Até que ouviram um barulho vindo do quarto do filho. O coração dos pais acelerou, mais o do pai, do que o da mãe. Ele expulsara o doutor da casa, e por um momento quis que o doutor ainda estivesse ali, pelo menos para abrir a porta do quarto e tomar os procedimentos necessários, caso o filho realmente fosse… Não! Não era, não podia ser.

O quarto do filho ficava no final do corredor. Os pais foram juntos enfrentar a realidade. Mais um barulho, e por mais que fosse difícil de acreditar, não parecia ser um barulho humano. O pai alcançou a maçaneta do destino do filho, girou-a lentamente, porta rangeu e o coração estremeceu. Até que viram seu filho metamorfoseado…

E era a coisa mais linda que qualquer ser humano poderia ver ou ter. Ele havia se transformado em uma espécie híbrida de leão com tigre-bengala na cor branca. Sua força era descomunal e assustava qualquer agressor que avançasse contra os pais. E ele era carinhoso, sempre quando os pais chegavam do trabalho, o filho metamorfoseado pulava no colo dos pais e lambia seus rostos afetuosamente.

Não demorou muito para que o filho e os pais virassem um sucesso entre os vizinhos, entre jornalistas, entre biólogos, entre a ciência, entre o mundo todo que queria conhecer a única espécie híbrida de leão com tigre-bengala branco. O filho adorava essa vida, embora não falasse, era visível que sorria e os pais, ao verem a linda metamorfose do filho, sorriam.

 

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