Você me muda

 

Toda vez que lhe encontro, a penumbra de minha mente se enche com o teu labor. Labor este que é mais forte do que a força de Hércules e mais sagaz do que os heróis clássicos que se escondem naqueles livros que as pessoas sempre estão lendo, mas nunca relendo.

Mas a você, eu nunca leio! Só releio, leio novamente e volto a reler com mais vontade do que nenhum deus imaginaria. Por que você não acaba? Por que nunca me canso de ti? É o primeiro toque! Quando meus lábios lhe encostam e você entra em mim como uma torrente de prazeres, condeno-me a teus desejos. E você diz:

– Mas é tão bom.

E eu digo:

– Mas tão bom é.

Sem que eu perceba, como uma medusa você me hipnotiza, todavia não me transformo em pedra. Transformo-me na metamorfose que está escondida em mim, não sei exatamente onde, mas lá está ela. E cometo crimes que só acontecem na imaginação de um castigado por você. E parece que o castigo não é suficiente, porque quando acaba, a penumbra vazia da novamente, pede aquele labor. Que sabor!

Eu não falo nada. Fico escondido, desta vez na penumbra física de um bar muquifento ou do cubículo em que moro, só lhe olhando; observando; resistindo; desejando; engolindo; e me iludindo. Desta vez sou eu quem vai falar, e não você. Desta vez sou eu quem vai controlar, e não você. Desta vez sou eu quem vai pensar, e não você. Desta vez sou eu quem vai lhe encontrar, e não você a mim. Desta vez eu não vou mudar, e você não vai a mim. Porque EU vou falar:

– Mas é tão bom.

E você vai dizer:

– Mas tão bom é.

É isso mesmo! Agora eu estou na direção, porque nós trocamos de papel e você é apenas o ventríloquo que estou usando como fantoche neste teatro da vida. Fale minhas falas, aquelas que organizei para você. Fale não. Diga:

– Mas é tão bom.

Diga:

– Mas é tão bom.

Por que você não diz? Por que fica aí parada, praticamente morta por fora, mas por dentro posso ver as bolhas do instinto efervescendo dentro de você. Você é dissimulada e sempre me retarda. Diga pelo menos uma vez as minhas respostas que estão dentro de você. Diga que não vai mudar a mim, como muda estas pessoas que falam tudo, quando na realidade dizem nada. Quero que diga que o que tem dentro de mim é tão bom quanto o que tem dentro de você. Diga. Diga (diga). Diga! Digaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa…

Então calada, você diz:

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