linhas bambas

Certa vez um moço caucasiano, todo parnasiano, chamado Cassiano se apaixonou por mim.
Não é falta de modéstia, se apaixonou mesmo.

“O que eu tenho que fazer pra te conquistar?”

Gritou ao pé da minha janela se achando o Romeu abaixo do balcão de Julieta.

Pensei  em não responder e deixar ele gritando lá, sozinho, pra aprender a não aparecer debaixo da janela de uma donzela sem sequer ter composto alguns versos e musicado em tom de serenata. Mas pensei melhor e dei àquele medíocre um desafio impossível. Sabia que ele não entendia nada da vida e quem não entende de vida tampouco entende de poesia. Então cantarolei, meio babaca, de propósito desafinada:

“Para me conquistar, uma poesia deve escrever e diante da minha janela recitar!”

O doido com ano no nome saiu correndo, desesperado. Achei, satisfeita, que tivesse desistido de conquistar a mocinha com complexo de Shakespeare.

Sete dias se passaram. O número da perfeição. O número bíblico com alto poder cabalístico. Era madrugada, três da madrugada. Hora mística.
Acordei assustada, pulei da cama e fui pra sacada, ouvir se aquele menino tinha sacado alguma coisa.
Ele recitou assim:

Se métricas rimas compõe o soneto

E ao pé da caneta se prostra o pranto

Que o lamento se disfarce de canto

E brinde o leitor com cianureto

 

Que a dor gerada aqui nesse quarteto

Cause na alma um tremendo espanto

Que o corpo diante do ataranto

Faleça por se sentir obsoleto

 

E esse triste momento pernicioso

Será o marco dessa grande tragédia

Com oito atos compostos em versos

 

Sem nenhum riso, deboche ou comédia

Em lodoso sangue o gênero imerso

Abraçará o público deleitoso.”

 

Uau! Gritei e aplaudi. Toda boba e apaixonada.

Acontece que enquanto o tal Cassiano, caucasiano, parnasiano, recitava toda essa bobagem embebida de regras e escrita basicamente dentro de uma calculadora, na esquina ouvi aquele moreno, todo sereno, tocando seu violão com todo o coração, e entre uma nota e outra ia cantando e dizendo:

“Numa dessas manhãs cheias de luz, vi passarinhos voar de mãos dadas com uma borboleta de asas azuis. Colhi uma flor e do pólen inalei o amor. Oh meu doce amor!”

E eu que nem asas tinha, ouvindo essa singela poesia inundada com a simplicidade que sempre desejei na minha vida, pulei da sacada esperando voar e pousar no ombro daquele moreno, todo sereno, que às três da madruga todo boêmio já estava bem bêbado.

O doido do Cassiano se emocionou achando que eu tinha me deleitado com aquele soneto nojento e pulado da sacada pra me suicidar à la Julieta.

Mal sabe ele que durante suas métricas calculadas encontrei meu Romeu sem drama nenhum.

Mas acabei sozinha por não aceitar o abraço do outro e por ter perdido de vista depois da minha queda aquele um.

 

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