A maré, amar é

Não sou mais apaixonada por você.

Acabou, assim, como uma chama que se apaga. Letras foram apagadas e o que restou foi um amor feito de lembranças queimadas e idealizações trucidadas que precisaram morrer pra realidade nascer.

Não sou mais apaixonada por você.

Apaixonada.
Nada.
Nadando.

Aquele amar inquieto e cheio de ondas agora não quebra mais. Permanece imenso, mas sem picos de emoção, e semelhante ao mar, o coração está banhado com água salgada – aquela água salgada que eu engoli depois de tanto chorar.

Aquela vez que eu quase me afoguei no meu choro.

Eu ainda choro.
Bem baixinho eu ainda choro.
Eu que achava que nem precisava de Deus, bem quietinha, chorando, oro.
Eu oro tanto e ao final digo amem – sem acento. Um amem em pé. Um amem em tom de súplica aguda.
Amem!
Porque eu não consigo mais amar.
Eu ainda amo.
E dói.
Eu não consigo mais amar.
Tá doendo.
Eu ainda amo.
Eu queria tanto amar.
Eu não queria ser mar. 
Eu não quero mais amar assim.

Queria ser rio.
Queria que fosse doce.
Queria sorrir.
Eu sou rio.
Eu ainda sorrio.
Mas dói.
Meu sorriso é semelhante a uma ferida e toda vez que abre dói.
Sorrir dói.
Eu não queria mais sorrir assim.

Eu não sou mais apaixonada por você.
O substantivo me pede para se transformar em verbo.
Me pede pra nadar.
Nada!
Nada!
Nada!
Olha, nada.

O verbo me pede pra se vestir de gerúndio, mas o tom imperativo me ensurdece.

Vai, nadando.
Vai! Nadando!
Nadando, vai!

Eu não aguento mais! – Grito em meio a última onda que quebra em mim.
Nada.
Não resta mais nada.
No (a)mar, cansada, fui sepultada.

Vai, nada.
Sou nada.
Naufragada.
Fragmentada.
Me afoguei.

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