Asas cortadas

Ele me fazia sorrir.
Eu sorria de alegria, satisfação. Sorria por sentir paz. Sorria por ele existir. Eu existir. E nossas existências terem esbarrado uma na outra.
Ele me fazia morrer de rir.
Eu tinha crises de riso de manhã, de tarde, a noite, de madrugada. E ele sorria ouvindo minha gargalhada.
Ele me fazia feliz.
Encontrei nele aquela felicidade absurda que, tenho certeza, ninguém nunca, jamais conheceu. Porque ninguém nunca na vida vai ser feliz como eu fui.
Eu era feliz.
E através daquela felicidade, aquela felicidade grande, imensa, gigante, eu voava.
Batia minhas asas que de repente eu descobri que tinha e abraçava o céu.
Meu pedacinho de céu.
“Meu coração parece que vai explodir de tanto sentir coisas boas” eu disse. Mas, segundo ele, o coração não era responsável por nenhum sentimento. Então comecei a perceber que ele sentia com aquela parte do corpo saliente. Sim, bem aquela parte. E eu gostava tanto disso… do jeito que ele segurava a felicidade bem ali, na barriga. O riso contido ali, bem no diafragma, me fazia sorrir. E enquanto ele continha toda a felicidade sonora no espaço mais redondo de si, eu ria, morria de rir pra depois ressuscitar e me sentir mais feliz do que nunca.
A gente era tão feliz.
Um dia convidei ele pra voar comigo. Ele sempre teve medo de altura, mas confiou em mim. Pegou na minha mão e eu puxei ele pro alto. O mais alto que pude.
Eu amava voar. Eu amava voar com ele. E parecia que ele amava voar também.
Eu nunca quis voltar pro chão.
Então, ele desceu, disse que já voltava e, quando voltou, trouxe consigo uma tesoura afiada e sem eu perceber foi cortando as minhas asas. Cortou pedacinho por pedacinho. E a medida que meu voo ia caindo, eu me culpava por não ter mais forças pra voar além daquele plano baixinho. Achava que eu tinha cansado de voar.
Quando caí no chão e percebi que não conseguia mais alçar voo, já era tarde demais. Não havia nenhum vestígio de asas. Eu estava condenada ao chão para sempre.
Eu queria odiar ele por ter cortado as minhas asas, dilacerado os meus sonhos de calçar nuvens. Eu queria matá-lo.
Peguei aquela tesoura afiada e segui apontando pra ele em constante ameaça, enquanto todos os dias ele narrava os bons momentos que vivemos no chão antes de eu me perder em mim e voar tão alto com ele.
“Podemos ser felizes no chão.
Ainda tenho esperança que você vai voltar a sorrir ao me ver no final do dia.”
E com a lembrança das minhas asas, olhei para o céu e chovi todinha por saber que as asas da minha mente nunca ninguém terá acesso para cortar.
A realidade diariamente vai me matar, mas eu ainda posso fechar meus olhos e sonhar. 
Então sorri. Sorri com a possibilidade de um sonho.
Sorri porque talvez um dia eu possa voltar a sorrir como eu sorria antes.
Sorri e me fechei em mim num para sempre incerto que o meu coração anseia que acabe.

Depois de cair, sorri.
Decaí
Sorri
e fim.

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