Bebendo a morte de canudinho

Lembro daquele copo laranja que eu ganhei de presente no dia do meu aniversário sendo preenchido com gargalhadas e vozes sem sentido. Aquele líquido alcoólico sabor limão ia subindo pelo canudo e todas as minhas histerias contidas iam sendo derramadas sobre você que ria e me afastava implorando que eu tomasse juízo. Mas eu que já tinha tomado todo o álcool da noite não quis misturar. Eu bebia desesperadamente para expelir minha coragem e todas as verdades camufladas que vez ou outra se apresentavam nuas, mas que você sempre vestiu com teu olhar. Bebia como alguém que estava há dias num deserto sem água e então se depara com um rio todo cristalino prontinho para ser absorvido pelo organismo fraco e sedento. Bebia para me libertar dos meus fracassos. Para crucificar os meus pecados. Bebia para vencer meus medos. Meus milhões de medos que me massacravam. Bebi o litro todo e queria beber mais. Então fui buscar sanar minha sede na tua boca que sentenciaria minha morte. Morri com o veneno de um beijo que me sufocou por dias, meses e todos os minutos das minhas noites insones. Fui crucificada no teu corpo e então fomos enterrados juntos, num caixão de segredos sujos manchado pelo arrependimento.
Mas algo me tirou do caixão e me obrigou a continuar existindo sentindo os pregos cravados na alma todos os dias. Então, todos os dias precisei buscar algo para me anestesiar. E aquele canudo do copo laranja, de repente, era como uma seringa me dopando diariamente.
Hoje continuo bebendo. Bebo para afogar minhas vergonhas. Bebo como penitência. Bebo porque criei uma penitenciaria a minha volta e me encarcero em mim mesma dia após dia. Continuo bebendo para não lembrar que um dia morri. Bebo na esperança de cada  lembrança morrer para quem sabe assim eu possa voltar a viver sem ter que lembrar que existem coisas nessa vida que é necessário esquecer.

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