Colo-rir da vida

O outono foi embora. 

O inverno já chegou.

As lágrimas já secaram e o sofrimento esfriou. 

Aqui dentro de mim o amor resolveu ensolarar 

e o meu coração esquenta a cada pulsar.

As estações sempre foram minha metáfora preferida, porque por mais que elas mudem, não são passageiras. Sabemos que o ciclo sempre se repetirá e cada estação voltará. 

Meu coração é assim: feito de estações. E não, não estou me referindo ao Verão, Outono, Inverno e Primavera. Estou falando da Paixão, do Desânimo, da Angústia e da Esperança. Essas são as minhas estações. 

A paixão me ilumina e deixa meus dias repletos de sonhos que aquecem a alma, quando essa estação chega ao fim convivo com o desânimo que surge diante das impossibilidades que fazem cada sentimento secar dentro de mim e, após o desânimo, o que resta dessa eterna menina que sou são apenas as minhas securas e os tons amarelados da vida. 

Seca e amarela: sintomas da solidão. E diante da frieza da solidão me deparo com o sofrimento… Sofrimento que congela tudo aquilo que secou. Mas por fim o gelo derrete regando meu túmulo de sentimentos mortos e eu sinto a esperança florescer. Com os galhos da vida cheios de esperança eu volto a acreditar que aquela luz quente do despertar da paixão voltará e sigo vivendo minhas estações que mudam, mas sempre se repetem. 

É, sempre foi assim. Ou melhor, era assim – até eu me apaixonar por você. 

De fato você me fez viver um ciclo completo dessas estações, mas quando a esperança floresceu, antecedendo a volta da paixão, algo mudou. A estação seguinte estava realmente ensolarada, minha alma estava verdadeiramente aquecida, mas as fantasias e ilusões que caracterizavam a paixão não haviam chegado. No lugar delas estavam a realidade e a doçura da vida, porque a paixão não ia retornar – ela preferiu virar Amor. 

E quando o Amor chega as outras estações se curvam diante dele e se transformam também. O desânimo se transforma em determinação, o sofrimento vira felicidade, as cores se misturam e se transformam em outras cores… A única estação que não muda é a Esperança, porque ela sempre floresce para vivificar o Amor.

O amor enfim chegou pra me fazer te enxergar sem lentes de aumento diante das suas qualidades e sem miopia diante dos seus defeitos. Nessa estação tudo fica tão claro que não é preciso lentes – o coração enxerga a verdade sem nada embaçado. E a verdade é que te amo mesmo quebrado e não temo me cortar. A verdade é que recolho os seus cacos e sonho com o dia que você irá se restaurar. 

Te amo com toda a verdade que existe no mundo. Te amo desse jeito maluco que não se contenta em respirar o mesmo ar que você, porque me faz querer te inspirar pra dentro de mim até eu e você sermos um só. E o encanto de amar é isso: a relação entre o desejo e a conquista interligados por uma espera que silencia.

Ta amo desse jeito estranho que me faz ter vontade de piscar os olhos quando olho pra você pra ver se você interpreta meu sinal. Porque todas as palavras que eu quero dizer estão emudecidas aqui dentro de mim e por quererem gritar me sufocam. E então quando digo que sinto vontade, na verdade já estou me imaginando fazendo exatamente o que eu disse. 

Te amo e esse amor me faz desejar seu sorriso e nesse desejo encontro o meu próprio riso que desabrocha ao imaginar o seu. Te quero pra mim e nesse querer descubro que já sou sua antes mesmo de você querer ser meu.

O amor é esse que me coloca cara a cara com a verdade e mesmo diante das impossibilidades não desanima – permanece sendo o amor vivificado pela esperança. Porque o impossível não abala o amor. Afinal, o impossível é o Deus dos pessimistas e nessa religião o amor é ateu. 

Ao contrário do que pensam os poetas, o amor não é Deus de si mesmo. O amor acredita na esperança e sabe que sem ela, ele não é nada. O amor presta cultos à Esperança e vive para acreditar que na espera há sim muitas chegadas. 

Então eu te amo.

E eu vou te amando assim: cheia de esperanças e descrente no impossível. Vivendo sem agir com a certeza de que um dia cada ação imaginada irá se concretizar. Afinal o amor é concreto e não abstrato. É feito de uma realidade a espera de um sonho. É feito de um alguém e de outro. É a ligação do meu coração ao seu mesmo cheio de interferências. É aquela história que só termina com reticências.

O meu amor é você, seu é o meu coração – e em você deposito toda a minha esperança para a próxima estação.

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