dando ré na melodia da vida

Quando eu era criança sonhava em ter a liberdade dos adultos. Naquela época acreditava que a verdadeira felicidade tinha a ver com idade.
Felic-idade.
Acreditava que conforme o tempo passava as pessoas iam ficando mais felizes. Ser feliz tinha a ver com quanto tempo você estava vivo.

Quando eu era criança minha felicidade era brincar na terra descalça. Os adultos não viam felicidade nisso. Eu pensava que se os adultos não tinham necessidade de brincar descalços na terra era por que provavelmente eles tinham acesso a alguma felicidade maior. Então, eu não via a hora de crescer, porque até então eu não conseguia enxergar nada que pudesse me fazer mais feliz do que isso.
Eu cresci um pouquinho e aprendi a andar de bicicleta. Foi aí que eu achei que tivesse descoberto uma boa parcela de liberdade. Andar de bicicleta era como voar sobre duas rodas – ainda mais quando eu me aventurava a soltar as mãos do guidão.
Acreditei que andar de bicicleta era liberdade eterna, já que alguns adultos ainda andavam de bicicleta. O problema é que os adultos pareciam acostumados à essa liberdade. Não sorriam nem gritavam enquanto andavam sobre aquele veículo que sempre elevou a mente ao céu. E eu pensei que, talvez, se a bicicleta um dia fosse tão comum assim, é porque no mundo dos adultos houvesse liberdades bem maiores.
Havia outra forma de liberdade que eu amava. Uma liberdade tão minha, uma liberdade tão íntima. Eu acreditava que ninguém sentisse um vento quentinho no coração como eu ao brincar no balanço.
O balanço era meu teletransporte para dentro de mim mesma. Ao me balançar eu tinha acesso as coisas mais secretas dentro de mim. Coisas que eu mesma escondi da menina que fui.
Meu balanço era pendurado em duas árvores, Minha Menina Grande – que era como eu chamava a árvore que plantei quando eu tinha 6 anos, e a Goiabeira-com-goiabas-de-bichinho do meu irmão – que era a árvore que ele plantou quando tinha 3.
Eu sempre achei que aquelas árvores não viveriam por muito tempo. Não igual os pés de limão e laranja lima da casa dos meus avós.
Não deu outra, alguns anos se passaram e meu pai cortou as duas árvores. As arvores caíram. Meu balanço caiu. E eu fui caindo pra fora de mim mesma de um jeito que nunca mais consegui voltar para dentro.
Um dia pensei em plantar Meu Pé de Laranja Lima, quem sabe depois eu comprasse um balanço e então pudesse ter aquele encontro comigo mesma que eu tinha quando me balançava. Mas nunca deu certo.

O tempo foi passando e eu fui me frustrando por não ficar mais e mais feliz. Tampouco mais e mais livre.

Foi então, que aos 10 anos de idade, descobri um novo balanço que nem sequer exigia esforço do corpo para balançar toda a alma por dentro – o lápis. Foi aí que descobri minha liberdade-mais-grande de todas. Ela era -mais-maior que todas as liberdades. Se me perguntassem qual o número dessa liberdade eu diria que vinte-e-dez, um número que pra mim sempre foi maior-que-o-infinito.
O lápis permitia tudo! Tudinho mesmo! Permitia que eu fosse eu mesma, da forma mais sincera possível, sem que os outros descobrissem que se tratava de mim.
Permitia que eu fosse qualquer outra coisa e dependendo da forma que eu escrevesse soaria bem convincente.
E foi aí também que me desesperei. Nem todos os adultos escreviam. E se eles tivessem descoberto algo diferente e deixado a escrita de lado depois que cresceram?
Não importava o que eu pudesse descobrir ao crescer mais, eu duvidava muito – muito mesmo – de que existisse algo melhor e maior do que a escrita.

Eu escrevi sobre a terra em que eu brincava e dessa forma, toda vez que eu lia, eu brincava novamente.
Eu escrevi sobre a minha bicicleta violeta que ganhei da minha avó. A bicicleta nunca mais desapareceu.
Eu escrevi sobre as minhas árvores e o meu balanço e até hoje, quando leio o que escrevi, eu me balanço mais uma vez e resgato aquela sensação de vento quentinho dentro do coração.

Mas houve algo inacreditável quando cresci: descobri que eu sempre estive certa. No mundo dos adultos existiam felicidades e liberdades maiores do que eu imaginava.
Os adultos tinham a liberdade de viver e morrer. Matar e dar a vida. E todo o mistério da existência morava bem aí: na vida e na morte.

Conheci adultos tão vivos que me fizeram sorrir sorrisos triplos que até hoje ecoam na minha mente.
Conheci adultos tão mortos que me fizeram chorar lágrimas tão pesadas que até hoje uma parte do meu coração é amassada.
Vi amigas darem a vida a uma criança a partir de si mesma: elas se desdobraram em dois.
Da mesma forma vi pessoas matarem as outras sem pensar no agora tampouco no depois.

Os adultos eram poderosos! O problema é que nem sempre sabiam usar esse poder.
Foi aí que percebi que as crianças gostavam de se balançar porque isso era uma metáfora enorme da existência dos pequeninos.
As crianças nada mais eram do que a balança do mundo: equilibravam o desequilíbrio dos adultos.
Eram seres poderosos em potencial que ainda sabiam lidar com seus pequenos poderes cotidianos e na simplicidade dos dias iam ensinando os maiores a lidar com seus imensos poderes descontrolados. É que o olhar dos pequenos ainda era sensível, não tinham perdido a inocência de enxergar as coisas sem muitas armaduras.

As crianças enxergavam a nudez das coisas.

Eu cresci, mas escolhi nunca parar de escrever. Escolhi não buscar por liberdades aparentemente maiores do que essa.
Eu continuo brincando na terra, andando de bicicleta, me balançando em balaços pendurados em árvores. Porque essas felicidades e liberdades que descobri quando era pequena me fizeram ser grande. E essa grandeza nenhum adulto nunca vai ter. Mas ao mesmo tempo vivo e morro. Mato e dou a vida. Exatamente como os adultos. Mas são as minhas coisas de criança que me ajudam a lidar com as minhas vidas e as minhas mortes, porque me lembram de encarar a nudez das coisas, retirando as máscaras que existem no mundo das gentes grandes.

Li certa vez que “há filósofos que são, em resumo, tenores desempregados” e acredito que as crianças são os maestros que regem todos os concertos e mandam embora aqueles que complicam demais as coisas. Porque as crianças nada mais são do que seres verdadeiramente livres das dificuldades e complicações.
A felicidade tem a ver com idade de fato. Quanto menos idade você tiver, mais chance tem de ser feliz.
Acredito que criança é alguma derivação da palavra crença – nos fazem acreditar que tudo pode ser melhor e mais fácil do que imaginamos.

Eu cresci. Mas não perdi a minha mania boba de enxergar a vida à olhos nus – por isso estou me despindo mais uma vez.

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