Expansão, são, somos

5 de dezembro
Água.

Quando eu nasci, minha mãe dizia, foi o dia mais longo do ano. Desde então todos os dias o tem sido.

Minhas células estão sugando íons de hidrogênio.

Permaneci mais de uma hora mergulhado dentro da banheira, até a água esfriar, escutando música e bebendo whisky. De maneira única ali, eu me senti velho e cansado. Eu havia chegado naquele ponto em que é muito cedo para morrer de velhice e tarde demais para morrer jovem. Fico assim, um bom tempo, entorpecido, meditando sobre a exclusividade da minha existência. Nesse momento percebo que demora muitos anos para a gente descobrir o que é estar sozinho de verdade. Fico esse tempo, mergulhado na água fria, como se voltasse ao líquido amniótico, nesse estado vegetativo que me deixa tão tranquilizado.

Bem, toda verdade soa como mentira se a dizem com tanta insistência.

Quando olho no espelho o que vejo são íris cor de café fraco no meio de olhos cansados e sonolentos. Um sulco horizontal na testa, dentes quase amarelos, cabelos castanhos já mostrando alguns fios brancos. No intervalo de uma respiração meus olhos perscrutam todo esse rosto. Ritide é o termo anatômico oficial para rugas, essas que estão dos lados de meus olhos quando sorrio. Essas linhas que vão dos cantos da boca até quase o fim do meu queixo, elas são chamadas linhas de marionete e eu me pergunto o quanto isso é irônico.

A previsão do tempo diz que teremos nuvens de dúvidas com pancadas de desespero.

Minhas células estão cuspindo íons de potássio.

Na faculdade de artes me ensinaram que a Mona Lisa não tem sobrancelha porque era o último detalhe que o artista acrescentou. Leonardo da Vinci colocou tinta úmida sobre tinta seca, então no século XVII um restaurador usou um solvente errado e borrou as sobrancelhas da Mona Lisa para sempre.

É assim que eu me sinto.

25 de dezembro

Acordei e meus músculos se contraíram como se a qualquer momento meu corpo fosse absorver algum grande impacto.

É Natal e tradicionalmente o jantar da família é na casa dos meus pais. Viajei duas horas para ir até eles e encontrar tios e tias que não suporto, primos e primas que nunca vi na vida. Maridos, esposas, primos de segundo, terceiro, sei lá até que grau ainda é considerado primo. O que sei é que é uma cópia amarelada dos anos passados, com uma falsidade e um tédio que beiram o precipício. Cedo todos estavam assistindo a mais um daqueles cansativos filmes sobre o Natal. Hollywood ganhou duas horas. Nós perdemos duas.

Achei que morreria ali mesmo. Ou desejei morrer ali mesmo. As duas coisas.

Foi então que, ao me dirigir a uma das mesas de salgadinhos, eu a vi.

Usa um vestido preto bem curto e sem alças. Os cotovelos estão bem juntos ao lado do corpo. Essa posição parece flexionar um músculo em seu peito, empurrando seu busto para cima. Uma crosta negra envolvendo seios rosados e carnudos. A mão segura uma longa taça de vinho branco, o líquido cheio até seu dedo indicador. O cabelo está todo penteado para cima, grande e volumoso, e fios e cachos se soltam e caem, e nada na expressão dela parece desejar erguer uma mão para ajeitá-los. Os saltos tensionam os músculos das pernas, empinando sua bela bunda ao final do zíper. Por baixo das longas pestanas seus olhos verdes observam o salão, e sua boca de batom vermelho perfeita, eu noto, não mancha a taça.

Descobri depois que era amiga de uma prima de segundo grau, dessas pessoas que estão muito longe de casa e não tem onde passar o Natal esperando ser convidadas por alguém, que ainda é melhor que ficar sozinho em casa.

Me aproximo e começamos a conversar. Há uma harmonia no nosso desagrado mútuo sobre festas de família e todas as baboseiras que temos que repetir todos os anos.

Os olhos dela.

Quando me olha por baixo de suas pestanas carregadas de rímel negro, seus olhos verdes, úmidos e macios, essa beleza entre líquido e sólido, algo em mim parece despertar. Explosões químicas percorrem meu corpo e tsunamis de endorfinas, dopaminas, invadem meu cérebro. Patrícia é seu nome.

Ela bebe o vinho até a altura do dedo mindinho.

Patrícia me diz que seus olhos verdes são como uma maldição que a condenava a ouvir sempre metáforas idiotas em cantadas ruins.

Até aquele momento, até o encontro com Patrícia, minha vida era apenas uma mandala de areia tibetana. Me pergunto se era esse o impacto que meu corpo esperava ao acordar

Começa a chover forte lá fora. Os pingos de água arranham as janelas e todos os sons da casa são abafados pelo barulho que vem de fora. A previsão do tempo diz que após o temporal um sorriso ensolarado surgirá no horizonte de meus lábios.

Nessa noite, como presente de Natal, meus pais me deram um telescópio.

Patrícia me dera um beijo.

1 de janeiro

A primeira coisa que a gente pensa no primeiro dia do ano novo é em olhar para trás. Olhar para as coisas que conseguimos e as que perdemos. Tudo aquilo que conquistamos e tudo o que deixamos. Por alguma razão nós sempre olhamos para trás. Por um momento damos às costas ao futuro e divisamos o que ficou lá no passado. Diante de tudo aquilo que é novo, desconhecido, nosso primeiro instinto é recuar.

A previsão do tempo diz que hoje é um dia lindo para sempre.

Olhando pelo telescópio eu começo a pensar. Então peço que Patrícia visualize comigo.

Imagine o caos primordial. As explosões que formaram todas as coisas. Imagine a sopa primordial, nesse momento em que o planeta era uma bola de fogo fumegante, então substâncias químicas e inorgânicas se uniram formando aminoácidos que, acidentalmente, se replicaram, tudo isso formado por átomos, prótons, nêutrons e elétrons e também pelo vazio. Afasta o pensamento vendo os átomos, os protozoários, os gatinhos, os humanos, o planeta Terra. Vê o sistema solar, vê a Via Láctea, as infindáveis outras galáxias e afasta mais teu pensamento. Veja todas essas galáxias e essas estrelas de tantas grandezas se afastando e dançando como partículas insignificantes no meio do nada.

Isso é a vida.

Ela aponta para as estrelas e diz “Você sabe que todas elas estão mortas, né?” e fala isso como se toda beleza necessitasse vir acompanhada de algo trágico.

“Sim.” eu digo, “Mas essa é a beleza delas. Mesmo depois de mortas seu brilho permaneceu, sua luz foi fixada no tempo.” Elas não querem ser esquecidas. Ninguém quer ser esquecido.

Patrícia e eu. Dois corpos com 90% compostos de pó de estrelas. Ela sorri me olhando e parece o nascimento de um sol. Pousa sua mão sobre a minha e nesse momento parecemos duas estrelas se unindo, se fundindo, formando uma nova.

Uma supernova.

Um novo mundo.

Um novo ano.

Imagine todas as pessoas do mundo dando as mãos, voltando ao seu estado original de estrela. Olhe para a sua mão. O que você vê é composto de todas as matérias que formam uma estrela. Você faz parte do grande todo, do universo inteiro. Você é único por ser uma parte única de uma estrela, de um universo.

Talvez essa seja a coisa mais bonita que alguém te dirá hoje:

Você é um universo em expansão.

 

Texto escrito pelo primeiro convidado especial do Quarto Minguante: Hemerson Miranda – O dono da razão, mesmo que a insanidade o tome por inteiro às vezes.

 

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