Herói sem causa

 

Fui acorrentado às convicções que me impuseram, fui castrado da arte de pensar e no sentido anacrônico da coisa, muitos diriam que tais acontecimentos eram justificados segundo o senso comum. Havia vida fora dos muros padronizados, havia ar a ser respirado, existia solução e respostas, porém as perguntas nunca foram feitas, hoje me dou conta disso.

Como num jogo de xadrez inacabado, reis trocam de lado, torres caem e peões morrem, peões de carne, peões com alma. Gritos ecoam de dentro dos muros, ou do que sobrou deles, aves voam numa sincronia coreográfica sobre o palco de areia banhado em tons escarlate. Ao longe enxergo homens de pele parda com olhar pesado, com sede de vingança e eu sem entender o que levou eles a querer vingança, já que o que fizemos era o certo. Mas o que é certo? Ousei questionar, mas rapidamente me recordei da obediência que um dia prometi e calei-me interiormente, pois a dúvida é inimiga da fé, diziam meus mestres. Senti um gosto amargo como o fel em minha garganta, meu corpo pesava toneladas, vi minha juventude sendo tomada em uma causa que até o momento não entendo com clareza, no fundo sempre tive olhos de misericórdia, mas hoje quem precisa dela sou eu! Fui forjado e formado na virilidade do trabalho manual, aprendi a reprimir a dor e não demostrar fraqueza, meus companheiros me ensinaram que homem não chora, mas quando olho para o lado, vejo os mesmos em pranto e desespero, convicções, já não vemos por aqui.

Reuni o que restara de meu insignificante sopro de vida, sentei, tentei puxar o ar, mas parece que num cataclisma ele deixou se existir. O sol a pino fazia correr litros de suor de minha face desfigurada, minha alma gritava, já que meu corpo era incapaz, pena que é somente ilusão, pois sinceramente nem tenho mais tanta certeza na existência da alma, questionei um dogma eu sei, mas nesse momento os dogmas foram também rasgados como verdades absolutas e se tornaram formas de calar os questionadores, que um dia eu tanto os critiquei e hoje me torno o mais insurgente deles. Lembro-me dos meus doze anos, lembro-me de querer mudar o mundo e hoje não sou capaz de mudar meu próprio destino. Lembro-me dos ensinamentos sobre livre arbítrio, mas percebo que ele só vale se for em prol de uma causa, “você é livre, mas se não fazer o que eu quero, maldita sejas tu e tua geração”, a prisão quando escolhida, também é uma forma de liberdade! Um turbilhão de coisas efervescia minha mente.

O tempo foi passando e o calor aumentando, senti o inferno na sua forma mais literal se aproximar de mim. Chamas, fogo, corpos em putrefação e outros ainda semi vivos abrasavam naquelas fornalhas improvisadas sobre a terra. Em meio a súplica que eu ainda ousava fazer, olhei para o céu e proferi minhas últimas palavras. “Senhor! Se ainda me ouves te peço, não permitais que no futuro, alguém me veja como herói, pois não sou, fui apenas a ferramenta de homens vis, que matam por motivos torpes e ainda ouso pedir-lhe, se possível destrua todos os resquícios de poder do homem sobre o homem”, e nesse instante meu hábito se transformou em cinzas.

 

Texto escrito pelo convidado Antônio Marcos Lima,

historiador e protagonista da história de amor da colunista de segunda.

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