Liberdade escravizada – Por Betina Pilch

Era uma vez uma menina que não gostava de verdade das pessoas, mas também não gostava de mentira.

Ela amava apreciar o ser humano e sua estranha complexidade, mas quando essa complexidade ultrapassava sua razão ela não sabia lidar e corria depressa. Quando tudo começava a se complicar ela fechava os olhos para a realidade exterior que a cercava e olhava para dentro. Lá dentro podia viver outra realidade que, apesar de ter (complic)ações, ela sabia tirar de letra. Sim, ela tirava as letras que complicavam as ações e deixava tudo simples, sem complicar nada. Porque a menina, muito esperta, sabia que as complexidades do seu próprio ser já eram mais do que suficientes para deixá-la louca.

Dentro dessa menina passou a existir um espaço muito grande, enorme, gigantesco. Era o maior cômodo do seu ser. Ela chamava esse canto de vazio.

Era nesse vazio que ela colocava todas as pessoas que gostava, porque sabia que a única parte completa do seu eu era a fonte do sentir e ela acreditava que podia transferir um pouquinho dos sentimentos para aquele cômodo cheio de nada.

Então, ela ia entupindo aquele imenso vácuo com um monte de gente, na esperança de um dia preencher todos os espacinhos e transbordar. Acontece que muita gente num mesmo cômodo gerava confusão. E, quando ficava confusa, ela expulsava essas pessoas do vazio, porque elas representavam aquelas letrinhas que complicavam as ações. Quando ela via todas aquelas pessoas vazando do seu ser, percebia que estava transbordando, porque era necessário que todos aqueles sentimentos que causavam confusão transbordassem para ela hospedar dentro de si aquela que sempre amenizava tudo: a solidão. Ou seja, a menina preenchia seu vazio com solidão e transbordava sem nunca ter sido completa.

Com tudo em paz, ela chorava e alagava tudo a sua volta. Porque o caos do sentir tinha ido embora e a sua fonte de sentimentos havia secado.

Certo dia ela acordou e sentiu câimbra do lado de dentro. Parecia que estava tudo retorcido e se ela inventasse de mexer em algum sentimento tinha certeza que a alma ia rasgar.

Entrou em desespero. Pensou que nunca mais ia poder sentir algo, porque doía esticar os espaços de dentro de si pra caber um ou outro sentimento. E quanto mais ela se desesperava, mais doía, e a câimbra crescia, subia, descia e a menina começou a fazer uma gritaria…

A mãe não entendia, o pai se retraia, e nos braços deles ela caía e pedia pra massagearem a alma dela pra ver se câimbra passava. Então a mãe cantava na língua dos anjos e a menina repousava. O pai ao lado da cama velava e de repente dormia e roncava enquanto a mãe toda acordada rezava. Pedia à vida que fosse boazinha com sua menina. Mas a vida ouvia e não entendia aquela língua e dia após dia provava aquela criatura forte que tanto sentia.

A menina sentia. Sentia muito. Sentia tanto que de repente não podia sentir mais nada. Se sentisse mais um pouquinho ia ser esmagada e ficaria completamente sufocada. Então a menina foi parando de sentir.

Agora, nada mais era completo. Tudo naquela menina era deserto, seco e sem vida. Porque ela não sabia gostar de ninguém direito – nem esquerdo – apesar de se (con)centrar.

Parou de sentir, de sorrir, de tentar se redimir por não saber fazer as coisas darem certo.

Hoje a menina não sente, não ressente e permanece com o peito fechado e o olhar aberto para que nenhum mal se aproxime ou chegue perto.

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