Untitled

Eu vou te contar uma coisa: eu fui traída. Sim, traída. E não foi uma única vez, foram várias.
Eu fui traída e eu sempre desejei que isso nunca mais acontecesse comigo.
Na maior parte dos dias eu procuro me distrair com tudo que é coisa boba para não lembrar das vezes que fui apunhalada pela falta de fidelidade.

Na minha frente há um copo rosa enorme de plástico com um café puro, velho e sem açúcar. O café está frio. Eu odeio café frio. Eu odeio tomar qualquer coisa que seja em copos de plástico. Eu odeio a amargura do café. Eu odeio a frieza e a falta de doçura da vida. Eu odeio a vida.

Eu fui traída.

Não importa o quanto eu tente me distrair, as metáforas sempre me chamam a atenção. As metáforas gritam. As metáforas estão gritando agora.

Uma vez minha melhor amiga me traiu. Ela beijou o menino que eu gostava. Achei que nunca mais doeria tanto uma traição.

Uma vez minha mãe me traiu. Ela contou para a minha madrinha sobre a minha menstruação. Eu pedi para ela não contar a ninguém sobre eu ter virado mocinha. Achava tão nojento eu já ter sangrado. Me sentia suja. Eu pedi. Ela me traiu.

Uma vez o menino que eu estava ficando me traiu. Pediu para beijar outra garota que disse não. Ele estava comigo, mas eu era possível e acessível. Não bastava. O menino que eu ficava me traiu.

Está escuro lá fora. Eu olho para o céu e não tem nenhuma estrela. Meus olhos ardem. Meus olhos chovem, mas não lavam nem levam nenhum dos pesos que carrego aqui. Minhas lágrimas pesam e minha vida está escura.

Eu fui traída e a traição dói para sempre.

Eu nunca mais tive uma melhor amiga.
Eu nunca mais me apaixonei por alguém que eu só estivesse ficando.
A única que perdoei foi a minha mãe e todos os dias eu me culpo por ter detestado ela quando ela me traiu.

Eu me detesto.

Está me faltando o ar. Não consigo respirar direito. Mas a bombinha está longe demais e eu preciso terminar esse texto.
Eu preciso lembrar. Eu preciso lembrar para poder esquecer para sempre.

É que eu fui traída.
Fui traída mais de uma vez. E eu sempre desejei que isso nunca mais acontecesse comigo.
Mas aconteceu.

Fui traída mais tarde por um grande amor. Essa foi a traição que mais doeu.

Doeu tanto que esqueci e perdoei todas as outras traições.
Mas essa eu não consigo esquecer.

Eu precisando de dinheiro pra comprar remédios para não enlouquecer e ele gastando o salário em pernoite de motel tratando de me esquecer.

Em dois meses de traição, ele transou mais com ela do que comigo durante toda a nossa relação.

Eu sozinha, calada. E ele tendo orgasmos com uma mulher casada.

Eu liguei pra ele pra saber onde ele estava. Ele estava comprando nossas alianças.
Na verdade ele não estava comprando nossas alianças. Ele estava quebrando elas.
Ele mentiu pra mim. E eu acreditei com a inocência de uma criança.
Eu não consigo mais olhar para a minha aliança.

Ele me traiu mais de uma vez. E eu achando que era única na vida dele.
Não somos únicos na vida de ninguém. Entendem?

Ele me traiu. E ela tinha olhos azuis.
Eu não consigo mais olhar para alguém com olhos azuis.

Eu fui traída.

Eu fui traída tantas vezes nessa vida que agora me falta ânimo para continuar vivendo.
Eu vejo fantasmas a todo momento.

Eu fui traída
mais de uma vez por todo
mundo.
Eu mesma já me traí não consentindo realidade aos meus desejos mais
imundos.

Mas eu não posso mais ser traída por ninguém.
Aos meus desejos mais pútridos eu preciso dizer amém.

Hoje atendo ao meu desejo de mulher vazia,
me entrego a sete homens no período de sete dias.
Pra amanhã atender ao meu desejo de menina ferida
e dar adeus aos meus sonhos e a minha própria vida.

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2 thoughts on “Untitled”

  1. Parabéns pelo texto! Gostei muito do ritmo que você dá a ele (principalmente na parte do relato das traições). Não gostei tanto do final – curiosamente da parte que eu já tinha lido no seus status (sim, faço parte dos seus contatos…rs). Acho que dava para ter quebrado um pouco a expectativa do leitor em relação ao “fim dos sonhos” da narradora e ter aproveitado melhor a relação da mulher vazia com a lua (que também míngua, mas sempre se renova – apesar de continuar sozinha na noite). Mas o texto está muito bem escrito, com boas passagens poéticas e certamente me rendeu uma ótima experiência de leitura. Obrigado!

    1. Obrigada por ler e comentar, Vinicius.
      Adorei a critica ao final da minha narrativa.
      Os textos postados aqui são baseados em desafios propostos pelos colunistas e uma das exigências do desafio dessa semana é que o final do texto seja trágico. Talvez pela temática da minha narrativa não consegui fugir do óbvio. Mas tentarei da próxima vez.
      Gratidão. E volte sempre para ler e comentar!

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