Venus-tidade

Eu sabia que aconteceria. Tudo estava escrito nas entrelinhas da minha vida. Havia uma sugestão robusta sobre o desabrochar das sementes semeadas em mim e eu tinha certeza que, apesar das cores vívidas, de mim também nasceriam espinhos bem afiados capazes de fazer grandes estragos em qualquer um que se aproximasse.

Acontece que o dia que eu te vi pela primeira vez, Vênus estava em escorpião e, então, tudo que eu sabia sobre mim se perdeu no espaço, nas lacunas, nos vazios e eu não encontrei mais.

De fato eu era cheia de cores e espinhos, mas eu não me assemelhava a nenhuma flor e com certeza eu não habitava em nenhum Jardim.
Eu sempre achei que sabia exatamente qual era a metáfora perfeita para a minha existência, mas quando eu te vi não me restou mais nenhuma convicção, nenhuma poesia, tampouco uma bela fábula para eu protagonizar.
Quando eu te vi pela primeira vez um fogo absurdo percorreu meu corpo e eu ficava me perguntando como você era por baixo dessas roupas. E o pior é que isso não tinha nada a ver com aquela minha balela de sempre sobre a nudez da alma.
Vênus estava em escorpião e eu só queria saber qual era o efeito do veneno contido na sua humanidade se penetrado em mim e, então, nem pensei duas vezes, me aproximei e te roubei um beijo daqueles e esperei a magia acontecer.
Mas não aconteceu nada.
Você ficou tão assustado e eu comecei a rir de nervoso sem saber por que diabos eu tinha feito aquilo.
Então virei as costas e fui andando pra bem longe de você.
Eu sabia que aconteceria. Tudo estava escrito nas entrelinhas da minha vida. Lembra dos espinhos? Eu sabia que eles fariam grandes estragos e, talvez, as cores por mais vibrantes que fossem, não chamassem tanta atenção assim.
Havia uma sugestão robusta sobre o desabrochar das sementes semeadas em mim, mas talvez, as sementes sem tivessem desabrochado ainda.
“Ei, volta aqui!” e quando olhei pra trás você estava bem diante de mim e me deu um beijo daqueles e me disse aquelas palavras que eu mal pude acreditar que eram reais.
“Desculpa não ter falado nada, é que quando você me beijou um fogo absurdo percorreu meu corpo e eu fiquei me perguntando como você era por baixo dessas roupas.”
Eu fiquei em dúvida se você tava falando do meu corpo ou da minha alma, mas na dúvida falei pra você me levar contigo e tentar descobrir.
Naquela tarde me despi inteira. Você viu meus seios e minha pele absurdamente branca e depois você me disse que não tinha medo dos meus espinhos e que amava as minhas cores.
Eu sabia que aconteceria. Tudo estava escrito nas entrelinhas da minha vida.
Um dia alguém haveria de me enxergar e me sentir e me (a)colheria para sempre.
Não sei como será amanhã, mas hoje vou aproveitar que Vênus está em escorpião e por enquanto essa sensação de para sempre me basta.
Você me fita tentando desvendar meus pensamentos mas eu sorrio e apenas digo:
Eu sabia que aconteceria.

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